terça-feira, 12 de outubro de 2010

Le Refuge

Uma forma nada óbvia de tratar da maternidade. É assim que François Ozon nos apresenta a história de Mousse, interpretada vigorosamente pela atriz francesa Isabelle Carré. Após sofrer uma overdose de heroína com o namorado Louis (Melvil Popaud), a jovem recebe a notícia de sua gravidez e da morte do parceiro. Mesmo contra a vontade da família do rapaz, que não gostaria que Louis tivesse descendentes, ela resolve assumir o filho sozinha. Sua decisão se justifica por acreditar que, dessa forma, estará mais perto do namorado morto (que era bonito demais para morrer). Dá-se, então, o que eu acredito ser o principal dilema do filme: o desejo de gravidez em uma mulher que tem consciência de que não está preparada para ser mãe. 
Na sequência, a personagem deixa a capital francesa e refugia-se em uma bela casa no litoral, onde parece levar uma vida muito simpática, com cafés da manhã no jardim e tudo. Como ela consegue dinheiro? On sait pas! Aliás, de sua vida, quase nada se sabe, mas isso não acarreta prejuízos à história. Mousse consegue levar uma vidinha pacata, tomando alguns remédios anti crises de abstinência, até que recebe a visita de Paul (Louis-Ronan Choisy) irmão de Louis, que chegou para passar uns dias. Apesar de inicialmente contrariada pela sua presença, Mouse acaba se apegando no rapaz e deixa transparecer até um certo ciúme quando Paul aparece com um namorado da vizinhança. 
Era evidente que Paul estava ali por alguma razão do “destino-roteiro”, que se explica no final da trama. O mesmo acontece com o dilema de Mousse, de querer ter o filho, mas não querer ser mãe. Sua gestação é explorada de uma forma diferente da que estamos acostumados a ver no cinema médio. Até porque, neste a grávida é a protagonista. Asssitir à personagem dançando, transando, sendo embalada por um desconhecido, tomando cerveja irresponsavelmente enriqueceu o tema "grávidas no cinema", acredito. 
E merecido destaque para a atuação de Isabelle Carré, que carregou o filme nas costas, com 24 semanas de gestação. SIM, ela estava grávida de verdade e aquela barriga não vai ganhar o Oscar de melhor maquiagem ever. Enquanto ela aparecia desnuda, os comentários na poltrona eram “bah, mas que barriga perfeita”; “ela engordou mesmo hein!; “olha isso, a única explicação é ela estar grávida mesmo!”. De fato. 
Ozon revelou que, por esse motivo, Le Refuge teve um ritmo de filmagens muito rápido, inédito em sua carreira; e que para aceitar o papel, Isabelle pediu que o refúgio fosse no País Basco, onde mora sua família. Eu sei que a maquiagem cinematográfica está muito avançada e que outra francesinha poderia encarnar o papel, mas a gravidez de Isabelle foi um trunfo para a película. Graças à cegonha, apreciamos cenas belíssimas carregadas de verdade, como quando Mousse caminha na praia de biquíni exibindo seu lindo barrigão ou quando interpreta a cena de banheira mais linda dos últimos tempos. Apesar da história ser triste, não a considerei dramática. Assim como houve morte e vida, houve um equilíbrio entre momentos tristes, contidos e engraçados. 



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