domingo, 31 de outubro de 2010

Clichês à francesa

Existem vários estereótipos culturais entre franceses e brasileiros. Aqui no Brasil, temos a imagem de que eles são rudes, elegantes, com seus lenços e boinas, que vivem com um baguette embaixo do braço e que não gostam de tomar banho, por isso criaram os melhores perfumes. No mundo, existe ainda a ideia de que os franceses, se não estão em greve, estão em férias. Embora exagerados, todos esses estereótipos tem um fundo de verdade. E moi, eu só saberei o quanto isso tudo é mito ou verdade, quando finalmente aterrissar na terra do fromage e ativar meu pariscópio. 

Nosso país também possui uma imagem estereotipada no exterior (com essa onda de mulheres-fruta, nem sei se é tão estereotipada assim), consolidada principalmente pelas campanhas de turismo da Embratur, que exploravam a sensualidade das mulheres em suas campanhas de turismo. Associa-se ao Brasil a ideia de praias, carnaval e mulher pelada. Na França, ainda existe o mito de que há muito travesti por aqui. Isso porque existem muitos travestis em Paris e a maioria vem do Brasil. Lá, a artista brasileira mais popular dos últimos tempos atende pelo nome de Salomé de Bahia. A brasileira, radicada em Paris, é produzida por Bob Sinclar (aquele de Love Generation) e mistura pop, bossa nova, dance e imagens carnavalescas, de praias e de futebol = o próprio clichê! O pior é que, segundo um amigo francês, o povo pensa que esse é o estilo musical que domina as terras tupiniquins. 
Pior ainda é quando a mídia retrata essas aberrações como realidade absoluta e ainda tripudia, como aconteceu na série de reportagens do Le Petit Journal. No primeiro turno das eleições, a equipe de reportagem veio ao Brasil fazer uma série de matérias sobre o pleito.  Foi lamentável, entrevistaram um travesti fazendo top less e até a candidata Mulher Melão, contribuindo ainda mais com a imagem de que aqui não existe seriedade sequer na política – ok, depois da eleição do Tiririca, não temos moral para reclamar.
Quando converso com o Cédric pelo MSN, falamos muito sobre as diferenças culturais entre França e Brasil, e  alguns estereótipos. Ele fica impressionado, por exemplo, com o “corpo a corpo” entre candidatos e eleitores - algo que é impraticável na França. Eu tento explicar que abraço é uma demonstração de carinho, sem vulgaridade; que fio dental é normal nas praias brasileiras (o que o deixa horrorizado) e que nem todas as mulheres são vulgares. Ele, por sua vez, tenta me convencer de que os franceses tomam banho todos os dias, que não fumam tanto e que não são tão rudes quanto parecem. 
Aproveitando o ensejo, voilà um curta-metragem realizado por Cédric Villain, em que ele brinca com os clichês sobre a França retratados no exterior.  A animação é muito digna e verdadeira. Mesmo sem entender francês, é possível fazer uma leitura visual e dar boas risadas, principalmente quando o locutor diz que o monumento mais famoso da capital é uma antena, que lá todos têm uma vista para a Torre Eiffel e que o som do acordeon está em todos os lugares. En regardez! 


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Le Refuge

Uma forma nada óbvia de tratar da maternidade. É assim que François Ozon nos apresenta a história de Mousse, interpretada vigorosamente pela atriz francesa Isabelle Carré. Após sofrer uma overdose de heroína com o namorado Louis (Melvil Popaud), a jovem recebe a notícia de sua gravidez e da morte do parceiro. Mesmo contra a vontade da família do rapaz, que não gostaria que Louis tivesse descendentes, ela resolve assumir o filho sozinha. Sua decisão se justifica por acreditar que, dessa forma, estará mais perto do namorado morto (que era bonito demais para morrer). Dá-se, então, o que eu acredito ser o principal dilema do filme: o desejo de gravidez em uma mulher que tem consciência de que não está preparada para ser mãe. 
Na sequência, a personagem deixa a capital francesa e refugia-se em uma bela casa no litoral, onde parece levar uma vida muito simpática, com cafés da manhã no jardim e tudo. Como ela consegue dinheiro? On sait pas! Aliás, de sua vida, quase nada se sabe, mas isso não acarreta prejuízos à história. Mousse consegue levar uma vidinha pacata, tomando alguns remédios anti crises de abstinência, até que recebe a visita de Paul (Louis-Ronan Choisy) irmão de Louis, que chegou para passar uns dias. Apesar de inicialmente contrariada pela sua presença, Mouse acaba se apegando no rapaz e deixa transparecer até um certo ciúme quando Paul aparece com um namorado da vizinhança. 
Era evidente que Paul estava ali por alguma razão do “destino-roteiro”, que se explica no final da trama. O mesmo acontece com o dilema de Mousse, de querer ter o filho, mas não querer ser mãe. Sua gestação é explorada de uma forma diferente da que estamos acostumados a ver no cinema médio. Até porque, neste a grávida é a protagonista. Asssitir à personagem dançando, transando, sendo embalada por um desconhecido, tomando cerveja irresponsavelmente enriqueceu o tema "grávidas no cinema", acredito. 
E merecido destaque para a atuação de Isabelle Carré, que carregou o filme nas costas, com 24 semanas de gestação. SIM, ela estava grávida de verdade e aquela barriga não vai ganhar o Oscar de melhor maquiagem ever. Enquanto ela aparecia desnuda, os comentários na poltrona eram “bah, mas que barriga perfeita”; “ela engordou mesmo hein!; “olha isso, a única explicação é ela estar grávida mesmo!”. De fato. 
Ozon revelou que, por esse motivo, Le Refuge teve um ritmo de filmagens muito rápido, inédito em sua carreira; e que para aceitar o papel, Isabelle pediu que o refúgio fosse no País Basco, onde mora sua família. Eu sei que a maquiagem cinematográfica está muito avançada e que outra francesinha poderia encarnar o papel, mas a gravidez de Isabelle foi um trunfo para a película. Graças à cegonha, apreciamos cenas belíssimas carregadas de verdade, como quando Mousse caminha na praia de biquíni exibindo seu lindo barrigão ou quando interpreta a cena de banheira mais linda dos últimos tempos. Apesar da história ser triste, não a considerei dramática. Assim como houve morte e vida, houve um equilíbrio entre momentos tristes, contidos e engraçados.